O que os documentários sobre o Fyre Festival nos dizem sobre os Millennials?

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O que os documentários sobre o Fyre Festival nos dizem sobre os Millennials?

Assisti um documentário no Netflix por estes dias e me dei conta que nunca tinha ouvido falar sobre este fiasco.

Então comecei a pesquisar mais sobre isso e me deparo com o texto abaixo, reproduzido na íntegra e que fala um pouco mais sobre o Fyre Festival, dois dias depois do Ja Rule ter afirmado que quer um FyreFestival 2.0

Em 2017, o empresário Billy McFarland fez uma parceria com o rapper Ja Rule para vender ingressos para um festival nas Bahamas, idealizado para promover uma nova plataforma que faria com que o usuário pudesse contratar celebridades e artistas para seu evento, uma espécie de “Uber da contratação de artistas”. O Fyre Festival prometia ser o melhor dos mundos de um evento perfeito para seu feed  no Instagram: modelos (Alessandra Ambrósio, Kendall Jenner, Hailey Baldwin, Bella Hadid, entre outras); comida espetacular; acomodações luxuosas e ecológicas; apresentações de Major Lazer, Migos e Blink-182. Mas, no ano passado, Billy McFarland foi condenado a 6 anos de prisão, por fraude.

Modelos e influenciadores digitais de grande porte foram contratados para divulgar o evento em suas redes sociais, promovendo a ideia de que o Fyre Festival seria um encontro exclusivo de estrelas, mas que qualquer pessoa poderia comprar – desde que essa pessoa pudesse pagar o ingresso, obviamente, que custava entre US$ 1.500,00 e US$ 25.000,00.

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As sementes do sucesso do Fyre Festival também foram sua queda: quando os participantes finalmente chegaram ao que parecia ser um estacionamento próximo a um resort (e não a Norman’s Cay, uma ilha deserta paradisíaca que havia sido de Pablo Escobar), eles documentaram, em suas redes sociais, tudo o que encontraram. No lugar de cabanas imponentes, eles encontraram barracas com colchões infláveis. No lugar de banheiros comunitários luxuosos com chuveiros, havia banheiros químicos. E, para comer: um sanduíche formado por duas fatias de pão de forma, queijo e uma pequena salada. Uma refeição como essa não seria de todo ruim, mas, na verdade, os participantes do festival pagaram por uma experiência gastronômica “à altura” do valor pago pelos ingressos.

Como um acidente de carro em câmera lenta, o Fyre Festival foi um acontecimento tão catastrófico que dois documentários, divulgados em poucos dias um do outro, estão tentando dar sentido a isso. Fyre Festival: Fiasco no Caribe, da Netflix, adota uma abordagem relativamente simples para escavar todo o fiasco que foi o evento, mostrando não apenas os crimes de Billy McFarland e o espetáculo público do colapso monumental do festival, mas também os trabalhadores das Bahamas que ainda não foram pagos por seus esforços.

Fyre Fraud, lançado pelo Hulu, adota uma abordagem diferente. Dirigido por Jenner Furst e Julia Willoughby Nason, ele explora as implicações sociológicas do Fyre Festival e o que ele diz sobre uma geração tão suscetível a um golpista com uma conta bombada no Instagram. Fyre Fraud inclui partes de uma entrevista gravada com o próprio Billy McFarland (supostamente pago por sua participação), mas esses são os momentos menos reveladores do documentário. O mais interessante é ver como Fyre Fraud usa a forma como o festival foi vendido para refletir sobre como alguns Millennials compreendem a sua própria identidade e sua ansiedade em retratar suas vidas nas redes sociais – se não tem foto, nunca aconteceu.

Fyre Fraud mostra que, apesar de todo seu desleixo, Billy McFarland tem uma percepção surpreendentemente intuitiva do que os Millennials querem e como comercializar novos produtos para essa geração. Tendo sido criada com o senso de que ser excepcional é a única maneira de ser bem-sucedido, os Millennials podem ser hiperconscientes de seu próprio status em relação aos outros, e investem o que têm – e, muitas vezes, o que não têm – para ter destaque dentro de um grupo. Por mais absurdo que o vídeo promocional do Fyre Festival possa parecer agora, ele coloca todos os receptores de dopamina em um loop infinito, gerando uma ansiedade e uma sensação conhecida por FoMO (fear of missing out, a percepção de que os outros possam estar vivendo experiências incríveis que você irá perder se não participar de determinado evento).

E tudo isso que nos traz à questão do perfeccionismo. Um estudo de 2017 feito pelos pesquisadores britânicos Thomas Curran e Andrew P. Hill descobriu que os Millennials têm índices de perfeccionismo mais altos do que as gerações anteriores. Em partes, isso acontece exatamente pelo fato de essa geração ter sido criada com a ideia de que para ser bem-sucedido não basta ser bom, é preciso ser excepcional. Segundo Thomas Curran e Andrew Hill, o perfeccionismo está criando adultos cada vez mais deprimidos, ansiosos, infelizes e insatisfeitos consigo mesmos.

As mensagens com as quais os Millennials no mundo ocidental foram criados os ensinaram a trabalhar mais e melhor do que nunca, em todos os aspectos de suas vidas. E são grande as chances de que esse trabalho esteja criando uma geração de pessoas infelizes, que se esforçam para alcançar o sucesso e evitar o fracasso, e estão permanentemente sintonizadas com as expectativas percebidas dos outros. Elas construíram charadas frágeis de identidades com base no que acham que outras pessoas vão querer. Querem provar que suas vidas são coisas a serem admiradas, seja por um armário perfeitamente organizado (como o fenômeno #KonMari vem mostrando após o lançamento da série da Netflix Ordem na Casa com Marie Kondo), ou por um feed perfeito no Instagram.

Qual o preço pago por isso? Bom, pergunte a quem comprou um ingresso para o Fyre Festival ou para quem faz terapia para lidar com questões com as quais as gerações anteriores aos Millennials certamente não precisaram lidar. Seja para as finanças ou para a saúde mental, não é difícil adivinhar o quão alta essa conta sai no final.

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